17 de mai. de 2009

BUCHA DE LOMBRIGA


Há dias ela observava que as crianças daquele abrigo estavam barrigudinhas e magras. Não poderia ser descaso da prefeitura que, a pedido dela, mandou um caminhão de filtros para as famílias desabrigadas da chuva. Mas a negligência e ignorância dos pais dessas crianças, que se não se preocupam com a educação, quanto mais com a saúde!
E como sempre, ela teria a absurda missão, não de colocar novamente as crianças na escola, mas de tratar da higiene da família, fiscalizando todos os Box de madeirite.
Era respeitada por todos daquele lugar, até mesmo os menos sociáveis. Era esperta.
-Ô Dona, tudo bem c’ôce?
Fazia que estava bem. Pedia licença para dar uma olhadinha no cômodo, e verificava tudo com naturalidade. A sujeira não era apenas visível, mas sentida mesmo com o olfato menos apurado. Poeira. Fogão imundo, panelas na pia a espera de água. O cômodo acomodava mãe, marido e três filhos. O mais velho com oito anos de idade. A família não possuía nenhuma renda aparente, mas ela sabia que naquele lugar dinheiro não era sinônimo de emprego. A cama de casal estava a um metro da geladeira, que se aberta toda vizinhança reconheceria o que havia dentro. Mas a cordialidade dela mascarava toda aversão àquela mãe de família e a permitia dizer coisas como:
-Suja essa casinha sua em Delfina, quero ver quando a prefeitura entregar a casa nova como é que você vai arrumar com essa porcaria... Que relógio bonito, antigo?
E continuou assim ate que, por fim, pediu um copo com água.
-Só tem da torneira.
-Mas por quê? E o filtro novo que dei pra vocês?
Foi direto verificar. Percebeu o nervosismo da Delfina quando abriu o filtro para ver o que tinha dentro. Buchas de maconha. Papelotes muito bem acomodados dentro do filtro.
-Ah, Delfina! Que porcaria –despistava- Pode ir tirando esses rolinhos, ou sei lá o que daí e colocar água pras crianças agora! Nunca vi que idéia de jerico, colocar rolinho de cabelo dentro do filtro!
Rapidamente os papelotes foram retirados e sem que ela percebesse o filtro já estava sendo lavado e cheio. As crianças não tiveram mais lombriga e nada mudou a relação cordial que mantinham. As vezes pra ser espertos temos que fingir de mula.

Ludimila 16/09/06

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